quarta-feira, 15 de março de 2017

O sequestro da menina - 020

 

A maioria das histórias infantis inicia desta forma e, sem fugir do arquétipo, assim apresento a abertura:

Era uma vez uma menina. Uma garotinha, cuja beleza não excedia a grande maioria, nem era grande nem pequena,... sem características capazes de alterar o ângulo do leme do conto neste mar contrapontístico.

Mas, sempre há um “mas” e, em algum lindo momento de sua vida, ela foi sequestrada por um casal. Não foi um rapto agressivo ou traumático, como estes sensacionalistas apresentados nos jornais televisivos. Foi tranquilo (embora aparentemente), um sequestro aceito pela sua família e pelos seus amigos, situação difícil para nosso entendimento. E ela seguiu docemente os seus novos “proprietários”, puxada por uma corda amarrada na coleira colocada em seu pescoço.

Ah, eu havia esquecido, foi um casal de cachorros que a sequestrou, em situação inversa aos nossos estabelecidos padrões. E eles eram suficientemente autoritários para impor-lhe disciplina aos exclusivos interesses destes novos donos.

Então a levaram para sua residência (uma grande casa de cachorro, é claro) e assim a mantiveram com impostas e balizadas limitações.

Ela não tinha mais independência para sair, não podia mais ver seus amigos, nem escolher seu alimento, que era condicionado a uns grãos coloridos, apregoados como ração balanceada.

Dog I

Os passeios eram submetidos aos rituais impostos pelo casal de cachorros (proprietários dela) e estava sempre restrita aos limites da corrente presa ao seu pescoço.

Até suas necessidades fisiológicas eram constrangedoramente regradas pelo relógio deles e em locais selecionados.

Então, quando tudo parecia muito ruim, sem a menor perspectiva de libertação, seu condicionamento foi ainda mais restrito, pois que o casal de cachorros resolveu adquirir uma pequena casa, muito pequena e pior, com rodas!

E ela ficava ali, muito triste, lamentando sua odiosa sina, enquanto os cachorros levavam-na nos lugares mais lindos para eles, mas não para a menina presa na coleira, tolhida de todas suas liberdades e confinada naquele minúsculo veículo sacolejante.

A humilde submissão dela não permitia amotinar-se contra eles, mas seu pensamento sempre pressagiava uma solução de liberdade. Imaginava-se correndo pelo parque, ninando sua boneca, saltitando “amarelinha” com as amigas, ideando fantasias a cativar uma raposa assim como no consagrado do Exupéry,... Oh, lambia os lábios a lembrar do pudim de leite que a mamãe fazia, ativava as parótidas (salivares) ao recordar dos churrascos do titio,...

As belas reminiscências foram avolumando em seu cérebro infantil, de maneira a desenvolver uma grande força positiva, suficientemente poderosa para iniciar um projeto de auto resgate.

Após algumas insones noites, foi agrupando conjecturadas ideias, até efetivar o derradeiro plano, presunçoso para a habilidade de uma frágil menininha.

Ela enroscaria a corrente em seu pescoço até ferir levemente, para que seus algozes afrouxassem a coleira, sem que notassem a consequente facilidade de fuga.

Além disso, ela aproveitaria que seus carrascos iriam a uma festa (de cachorros, é claro) e instalaria laços no piso da cabine do veículo, suficientes para prender as patas deles ao retornar.

Depois, construiria uma simplória prateleira atrás do veículo e ali colocaria o par de sequestradores amarrados pelas patas dianteiras. E, como seu pai a havia ensinado que os sons agudos intimidam os cachorros, toda a ação deveria acontecer sob seu potente brado, de alta frequência e a plenos pulmões. Isto não seria difícil.

Então, assumiria o comando do veículo, resultante do atento conhecimento adquirido durante o período da viagem.

Dog II

O plano transcorreu na perfeição de seu planejamento e ela seguiu viagem, feliz e sob seu pleno domínio, referindo sua história por onde passava. Logo os cachorros aprenderam a lição, foram libertados e seguiram contentes ao seu universo.

O mais importante resultado deste relato foi o magistral ensinamento que resultou: a partir de então, nem os cachorros sequestraram mais pessoas, nem os humanos privaram a liberdade dos cães.

Darlou D’Arisbo (Dan)

Pela liberdade dos cães e dos humanos

sábado, 13 de agosto de 2016

As meias amarelas e a vovó Beatriz - 019




Um fato bastante curioso me ocorreu na década de setenta.   
Eu trabalhava como orientador de planejamento urbano e aplicação de recursos federais em várias cidades do oeste catarinense.  A Bea realizava um estudo sobre evasão escolar na maioria dos mesmos municípios. Em algumas ocasiões, coincidíamos o roteiro e viajávamos à noite entre as cidades, no meu carro, para cumprir o longo cronograma em curto espaço de tempo.  Mas, por vezes, a meteorologia era adversa e o deslocamento perverso.

Pois, numa noite fria, agravada pelas rajadas de vento, a chuva descia abundante.  Mal os limpadores conseguiam “varrer” o para-brisa.  Eu conseguia ter a visão parcial da estrada apenas no curso espaço de tempo após cada “varrida”.  O carro percorria seguro em marcha reduzida e velocidade baixa, pela estrada lúgubre naquela região serrana.
O inverno marcava presença rigorosa e, assim como quase todo o gênero feminino, minha companheira de viagem reclamava de frio nos pés.

Havíamos esvaziado a garrafa térmica de café e procurávamos, na próxima cidade, um sonhado hotel com banho quente e cama repousante.
Mas as horas passavam, a noite corria, a chuva continuava e não observávamos a menor luzinha no horizonte. 

Quando abrandava a chuva um véu de neblina cobria a estrada, dificultando ainda mais a visualização e aumentando o perigo de encontrar algum animal, objeto ou pessoas na pista escura.

A “Bea”, semi acocorada no banco direito, tentava aquecer os pés com as próprias mãos e ajudava a me orientar naquele breu noturno. 
Era comum ouvi-la: “acho que é curva à direita” ou “cuidado, está no acostamento”.  O mais comum era “meus pés continuam gelados!”


Mas lembro-me que após uma pequena curva à esquerda e subindo, havia uma reta rodeada de vegetação, foi quando a Bea elevou bruscamente a voz:
“É uma pessoa, fazendo sinal, pááára!.

Poderia ser apenas alguém solicitando carona, porem, naquela tardia hora da noite, com chuva e em local remoto, a hipótese maior seria de  acidente, e uma pessoa pedindo socorro.
Embora com a baixa velocidade, ultrapassei-a, mas consegui parar e, cautelosamente retornei em ré, até alinhar a porta direita com a tal pessoa.
Era uma senhora, abrigada apenas com uma espécie de capa acinzentada com um lenço sobre a cabeça.

Acendi a luz interna e a Bea abriu uma parte do vidro, para podermos visualizar seu rosto e saber o que desejava. 

Era uma solitária idosa, com feições angulosas, nariz proeminente, pele alva e rugosa. Tinha os olhos muito brilhantes, como se emanassem deles um tênue irradiado azul.


Perguntei a ela se necessitava de ajuda.  Respondeu-me, em voz agradável e gentil, que estava ali à margem da estrada para oferecer um par de meias longas e grossas.

Incrédulos, e antes de proferirmos qualquer palavra, ela enfiou pela fresta do vidro o par de meias amarelas, protegidas pela sua capa, e que caíram no colo da Bea.  

Perguntamos, quase em coro, como ela sabia que estaríamos ali, naquele momento, mas uma forte e repentina neblina surgiu e desvaneceu a imagem da simpática senhora, como se ela tivesse flutuado no sentido da vegetação.

Dei partida no carro, sob o olhar perplexo da Bea, com as meias nas mãos.

“Por favor, convença-me que foi um sonho, um devaneio!” disse-me.

Com suas meias vestidas e os pés aquecidos, cerca de uma hora após, chegamos ao destino, uma cidade de pequeno porte e com razoável hotel. 
Após o merecido banho quente, ela vestiu novamente as quentes meias e, em tom inquiridor e olhar receoso, perguntou-me:

“Você e a idosa planejaram isso?”

“Foi um sonho, durma, você está cansada!” respondi.

O dia seguinte amanheceu com céu límpido, embora com baixa temperatura, assim como os demais.

Conclui o trabalho em uma semana, dentro dos limites estipulados e voltei para Curitiba.  A Bea retornou para Brasília.

Ontem, quatro décadas depois, recebi um telefonema dela e, dentre outras lembranças, comentou alegre:

“Você lembra das meias amarelas? Pois elas são indestrutíveis, já abrigaram os pés das minhas duas filhas e, agora, estou aguardando que minha neta cresça o suficiente para também utilizá-las...  Acho que não foi um sonho!

Expliquei-lhe que, naquela noite, meu anjo da guarda havia conectado com o respectivo da tal idosa e assim, convencido-a a presentear as meias, que serviriam a muitas gerações, desde a jovem vovó Bea.

Nem comentei que a tal idosa tem me aparecido a cada década, sempre com inesquecíveis regalos, alguns já relatados, como o episódico “O melhor dos vinhos”, descrito em meu livro.

(As quimeras cromáticas realçam o ficcionista sabor da realidade tangível)

Darlou D’Arisbo - julho de 2016