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sábado, 24 de janeiro de 2015

013 - Meu querido Land Rover

 
“É vedada a utilização de quaisquer informações contidas nestas publicações, sem autorização expressa de seu autor, sob pena de indenização judicial.”

Para uma criança ávida de informações, curiosa, meticulosa, investigativa no âmbito das intrincadas maquinetas, cada descoberta de funcionamento mecânico simbolizava uma vitória do saber sobre a ignorância.  Assim, eu desmontava brinquedos de corda (acionados por flexão de mola enrolada), inservíveis relógios de mesa, liquidificadores,..   As engrenagens, transmissão de movimento, ações de força motriz e outros componentes mecânicos fascinavam-me e constituiam meu fantástico universo.
Este conto integrou o livro “Apenas, uma miscelânea” de minha autoria

Meu querido Land Rover

No dia de meu oitavo aniversário (16 de julho de 1956), papai me deu o melhor e mais inesquecível presente de toda a minha vida. Claro que não dirigido exatamente para mim, pois que um veículo inglês e zero quilômetro, não consistiria em sensato presente para um pirralho de terceira série primária, embora eu fosse considerado pela família e amigos como um precoce “expert” em automóveis.   Mas juro que me imaginava proprietário dele. Papai seria apenas o motorista e eu amava aquele fantástico Land Rover, verde, novinho e cheiroso. E, pelas suas janelas, um novo mundo descortinou-se para mim. Nele, eu me sentia seguro, a vislumbrar paisagens antes nunca vistas, a ultrapassar obstáculos intransponíveis para os outros veículos. Dentre tantas outras memoráveis imagens, perpetuadas em minha memória, lembro quando rebocamos um caminhão carregado de cebolas, antes atolado nas areias da cidade de Torres, no litoral gaúcho.
Tal como algumas crianças, idolatravam personagens de revistas em quadrinhos ou filmes da época, o meu herói era metálico, real e valente como nenhum. Eu vibrava com a demonstração de força e capacidade do meu ídolo veicular.  E, como eu não entendia inglês, digeri todas as figuras do imenso manual do proprietário, deduzindo as informações, para auxiliar o papai na manutenção do veículo. Aliás, além das memoráveis e prazerosas viagens que fazíamos, minha alegria de final de semana era lavá-lo, verificar nível de óleo, de água, limpá-lo caprichosamente, até em seus detalhes com uma velha escova de dentes.
Aos poucos, papai foi me permitindo outros prazeres. Como eram três bancos dianteiros e independentes, eu ia sentado no do meio, mudando as marchas, engatando a tração dianteira ou a “reduzida” naquelas três alavancas coloridas, em perfeito sincronismo visual e auditivo.  E, por ser magrinho, enfiava-me por baixo do carro, para desparafusar o bujão de escoamento do cárter, na ocasião das trocas de óleo.  Uma vez fui repreendido pelo papai, ainda que delicadamente, por ter escoado o óleo da caixa de cambio em lugar do cárter. Não demorou muito e eu já desfilava, no colo do papai, deslumbrado na direção do Land Rover.

Land Rover 1

Meu ídolo foi mais que um herói de alumínio e aço. Foi um fantástico e metálico professor de mecânica. Nele aprendi, na primeira década de vida, o funcionamento do motor, da bomba elétrica de combustível (revolucionária para a época), articulações de tração dianteira, e outras tantas maravilhosas e férteis sementes que frutificaram meu conhecimento atual.  E atrapalhava os mecânicos da concessionária, ao meter-me entre eles, quando das revisões convencionais. Eu precisava entendê-lo, sentia necessidade de conhecer suas entranhas mecânicas, para poder sanar ou ajudar em caso de alguma possível e rara pane.
Anos depois, o demonstrado carinho ao Land Rover rendeu-me o mais fantástico prazer que poderia desfrutar um menino de dez anos. Foi no verão, quando papai foi caminhar na praia, enquanto eu brincava de pilotar o carro, estacionado em frente à nossa casa de veraneio.  Sozinho e transbordando coragem, girei a chave, dei ignição, pisei na embreagem e engatei a marcha, mas o medo venceu... Desengatei e desliguei. Com o coração acelerado e o suor escorrendo, pensei: “serei um frustrado, se não o fizer”.   Liguei novamente e, com perfeição, fui dirigindo até o final da rua (uns 200m), onde manobrei e voltei, estacionando no mesmo lugar, obviamente invertido.
Adormeci então em seu banco, na plena meia tarde, esgotado pelo êxtase da primeira vez em meu domínio completo da máquina.  Acredito que o meu querido Land Rover facilitou as coisas...  Logo depois, papai acordou-me, perguntando como o carro estava estacionado ao contrário. Tomei-me de coragem e admiti, tenso e gaguejante: “Tu não vais acreditar, pai, mas fui eu”. E, para minha surpresa, tomou-me no colo, abraçou e beijou-me.
Dois anos depois, tivemos o veiculo furtado. Com grande pesar, passamos a procurá-lo pela cidade. Encontramos nosso tão querido Land Rover irrecuperavelmente destroçado num depósito de carros acidentados.   Choramos abraçados, papai e eu, como nunca antes ou depois.
Darlou D’Arisbo

Os pequenos atos que fazemos são melhores que todos os grandes que planejamos. (George C. Marshall – general americano – 1880 / 1959 )













domingo, 12 de outubro de 2014

012 A boneca azul e o forno da solidão

 

“É vedada a utilização de quaisquer informações contidas nestas publicações, sem autorização expressa de seu autor, sob pena de indenização judicial.”

A força, a beleza, a arte, a ciência e as virtudes constituem-se em valores infinitamente grandiosos, embora imateriais, formando a consistência de nossa individual espiritualidade.  É a institucionalizada dualidade entre as ações físicas e as espirituais, que forma tensão de variáveis intensidades e sentidos. Certamente é esta a mais antiga e radical causa que divide os humanos.

Vejamos, pois, o exemplo de uma vela:

Quando acesa num ambiente escuro, ela inunda o ar de sentidos, dá cores e formas a todos os objetos. Revela as tantas expressões de nossas faces, o brilho de nossos olhos e mentes...   Tal um ímã, atrai e completa os nossos espíritos, anima nossas mentes, traz as letras do que desejamos ler, apresenta tudo o que queremos procurar, ilumina nosso caminho.   Sua energia invade nossa alma e sua luz excede aos lógicos princípios das ciências.

A vela acesa configura a luz, o espírito e o calor da vida. Sua chama representa a grande fonte de energia que transforma e revigora todas as matérias existentes no universo.

A diferença, pois, entre uma vela acesa e uma apagada não se resume apenas na sua chama. É sim, substancialmente incomparável.


vela E, navegando neste mar incorpóreo, o conto que segue, foi laureado no 25º Concurso de Contos Paulo Leminski, para meu intenso júbilo e de todos os que me honram visitar e ler minhas despretenciosas letras.. 

A boneca azul e o forno da solidão

Depois de um estafante dia de trabalho, sigo diligente os meus noturnos passos, cadenciados e alinhados sobre a cerâmica polida, a qual reflete o voo das fluorescentes do teto, rasantes e acesas, contrárias ao meu curso. Neste corredor vazio do labirinto hospitalar, sigo a rota para o aconchego do merecido descanso no reduto dos meus sonhos.

Ouço ainda os reverberados e decorrentes sons de dores, choros, agulhas, gemidos, macas, soros e sangues das mal dormidas outras noites.

O movimento levemente ondulado a cada passada, induz meus olhos a acompanhar, naquele chão reluzente, os coloridos ladrilhos desencontrados, geometricamente simétricos, de onde erguem-se as austeras e metálicas portas. Elas envolvem-me rangendo e passam, como se não fosse eu o seu preferido petisco. Perfilam-se grades e correm para trás, aos meus passos, em rígidas filas militares.

Meus olhos varam uma colorida prisão de pássaros inocentes e engaiolados em meio a flores murchas no jardim contíguo à enfermaria infantil. Ameaçam meus ouvidos, com os trinados de protesto. Esvoaçam eles, doidos elétricos e em vão, a tentar sacudir os poleiros rígidos. Choram a falta da liberdade dos céus e o embalo dos ventos. Rápidos e bruscos, estancam seus brados quando ouvem o grito de uma criança. Reverberado clamor, em gozo e vitória do atendente sonolento, ao enfiar a agulha no desespero de uma carne infantil. Rasga as vivas e tenras fibras, a pendular a seringa tal um badalo de sino, ante o esperneio agitado e o choro sufocante da insignificante vítima.

Ao atravessar o tal florido, minha mesma mão que torceu as polidas e contaminadas frias maçanetas, acaricia agora as mornas pétalas do manso canteiro de flores orvalhadas a também deslizarem para trás. Como foram, estão indo e irão todos os meus luzentes dias.

Rompe-se a perspectiva linear num quebrar silencioso: dobro à esquerda no sombrio corredor.

Troco então as doenças da primeira classe pelas agonias da segunda. Barbudos, barrigudos, desnutridos, semimortos. Fiapos de gente, mal embrulhados em enodoados coloridos e puídos panos velhos.

Formam uma galeria de quadros diferentes, cada qual uma dor estranha, com variados formatos, cores, tamanhos, súplicas e odores. Comuns e exatamente iguais nos olhares.

Seus olhos sugerem vagas flechas de cristal morto que me alvejam e me sentem fisgado até que me afasto, além dos limites de uma porta sem folha.

Manifestam-se tais corpos de combustão morna, assim como a sopa que receberam.

Um “boa noite doutor”, feminino e sussurrado, vaza minha emoção dissimulada. Meus passos são mais rápidos que a difícil resposta.

Outra massa inerte e horizontal, com o semblante confundido ao próprio branco e amarrotado lençol que pouco cobre, desliza na maca empurrada pela atendente. Mais um peso disforme e fraco. Como se o próprio espírito dele se tivesse divorciado e ficado apenas o corpo, num leve balanço ao movimento das rodinhas no ritmo das emendas do piso.

Percorro o grosseiro depósito que regurgita emanações voláteis, envolvido por múltiplas cores, na miscelânea química dos alcoóis, bálsamos, purgativos, bismutos, quininos, sulfas, antissépticos,... Tão calmantes como excitantes. Em todas as formas e texturas sólidas ou gasosas, líquidas ou gosmentas, eles mantêm engatilhada sua estudada diagramação visual, à espera que o consumidor bicho homem comprometa o fígado para, feliz, salvar os brônquios; destrua o estômago para, contente, preservar o coração e assim por diante.

Esbarro na auxiliar nojenta, obesa e desajeitada, tanto quanto a indigesta notícia que me dá:

“ Morreu a criança do Funrural”.

Prometo dormir com a imagem de seu meigo e debilitado sorriso de anteontem, quando lhe dei uma boneca pálida, com vestidinho azul.

Três passos à esquerda e a chave do meu humilde aposento está escondida na báscula do sanitário.

Temporário e quente cubículo, qual um forno da solidão. Meu noturno e leniente cárcere de paredes anil. Tal azul a única boneca da criança menina.

Dormirei tão quente quanto sua febre, e tão só quanto sua alma.

ambulânciaA ilha da imagem não revela o mar do conto (DD 2014)

 

Saudável reflexão do dia:

“O orgulho não é mais que um edema, é grande mas não é sadio” (Santo Agostinho)

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

011 - Vara Cível

 

“É vedada a utilização de quaisquer informações contidas nestas publicações, sem autorização expressa de seu autor, sob pena de indenização judicial.”

A ficção construída no terreno das verdades – 898012

Vara é um vocábulo que teve origem no antigo Império Latino, onde significava “galho flexível” e com o mesmo sentido atual, de haste vegetal, delgada e longa, normalmente ainda utilizada para bater nos flancos animais e nas nádegas infantes. Termo já usado para unidade de medida, hoje comum como vara de pesca, salto com vara,…

Vara 1

Na Roma Clássica (século II a.C.) um feixe de varas encimado por um machado era o símbolo da magistratura, como autoridade representada (poder do imperador).        No passado próximo, tivemos esta representação do feixe de varas como símbolo do movimento fascista, fundado em Milão em março de 1919 por Benito Mussolini. (fáscio = feixe de varas)

Vara 2

Cível, também de origem latínica romana, vem de “cívilis”, termo jurisprudente e relativo com especificidade ao indivíduo do povo, em suas relações entre si, não militar nem eclesiástico.    Assim como civis eram considerados os tratamentos generalizados e dirigidos à comunidade romana, submetida, standardizada e tributável.

Foi no período de Júlio César, que os procedimentos judiciais passaram a ser divididos em três grupos: os julgados nas cortes militares, na jurisdição eclesiástica (que depois veio a organizar as bases do Direito) e pelas “varas” cíveis.         Apenas as contendas sem envolvimento militar ou eclesiástico eram tratadas como civis. Assim, bastava que algum assunto ou contendor fosse desconsiderado civil, para o julgamento merecer os mortais rigores militares ou pior: o fogo eclesiástico!

Vara 3

No caso epigrafado, a “Vara Cível” consistia na punição do civil julgado culpado, que era submetido às dolorosas chagas das intermitentes e violentas “varadas”.

O apenado era apresentado em praça pública, nu, genuflexado e com os pulsos amarrados entre si e aos joelhos, sendo-lhe então aplicados golpes de vara em número proporcional à gravidade de seu suposto dolo.

Vara 4

As varas utilizadas eram depois queimadas para que o sangue e as fezes que as envolviam não contaminasse algum honesto cidadão.

(Da série “Ad perpetuam rei memoriam”, presente no livro “Apenas”, a ser lançado em agosto de 2014 -  UolRad ÖbsiRad / since 1947)

sábado, 15 de março de 2014

005 – Falecimento do Amigo Xico

 

Este, escrito na década de 90, foi agraciado com o Prêmio Leminski 2010.

Certamente, as imagens não retratam a realidade do episódio

Estou chocado, entristecido, estupefato, pois o mundo não pode aceitar isso. Há pouco retornei do enterro. Meu melhor amigo se foi. Justamente aquele, meu confessor, cúmplice e colega. Um amigo inesquecível. Comíamos e bebíamos juntos, até no mesmo copo. Um amigo de décadas.

Tantas vezes saímos a quatro: ele e a namorada, eu e a “Tuca”, irmã dela. Certamente não serei o mesmo depois da morte dele.

Enterro

Esta triste história começou ontem, cedo. A “Lu” havia pernoitado aqui, pela terceira vez. Só não dormiu comigo, porque discutimos ao discordar sobre o nome verdadeiro do Silvio Santos. Foi uma discussão besta, concordo, mas no calor da contenda não se pensa nisso. Eu acabei por dormir no chão, neste repentino frio danado, sobre um colchonete duro, parcialmente enfiado sob a mesa de pedra. Passei frio durante toda a noite.

Ela no sofá, na mesma sala de televisão, emburrada e emudecida, tal uma vaca. E, quando acordei, não lembrei onde estava e bati, violentamente, com o nariz na aresta inferior do granito. Sangrando muito, fui ao banheiro lavá-lo, mas estava fechado, pois ela tomava banho. Fechada e furiosa, ruminante microcéfala. Mas estas particularidades não interessam.

Tentei então lavar o nariz no tanque de lavar roupas, onde enrosquei o pé nas minhas roupas sujas amontoadas e caí, com o cotovelo esquerdo na tábua de passar, antes de estatelar-me no chão, com a nádega no degrau da porta. Berrei por ela, o cachorro começou a uivar junto e não resolveu coisa alguma.

Simpsons

Fui então sentar-me na cozinha e chorar minha desgraça, até ouvir o ruído da porta, fechando. Ela nem se despediu. Eu juro que aqui ela não entra mais. É formosa, mas estúpida.

Ao tentar tomar banho, assimilei mais um motivo de fúria dela: o chuveiro havia queimado. O jeito seria tomar um café sem açúcar, que tinha acabado, mas como a cafeteira estava suja, fui me vestir, com muita dor e dificuldade.

O nariz tinha uma laceração entre a cartilagem e o osso, o cotovelo estava roxo e o braço meio bobo, sem comando. Um galo na têmpora, um pequeno corte na orelha e dor, muita dor, no joelho e na lateral da nádega, complementavam a desditosa imagem.

Como tinha que chegar cedo ao serviço, entrei no carro, acionei o portão eletrônico e tentei sair, já atrasado. Claro que, com a chuva torrencial que repentinamente se abateu, o portão trancou.

E lá fui, tal pinto molhado e furioso, desemperrar a imensa e pesada grade metálica. Deixei aberto, para a empregada fechar. Nem lembrei que ela não vem quando chove muito.

Saí em ré, com muita dificuldade e, manobrei quase batendo num ônibus apressado, cujo irritado motorista acenou-me, mostrando ereto, o dedo médio.

Não andei mais que uma quadra e, bem no meio da rótula, para entrar na avenida, desconfiei que a dificuldade em dirigir não era minha, mas sim de um pneu vazio. Desci do carro ali mesmo, para confirmar, quando alguém chamou uma ambulância dos bombeiros a me ver naquele lastimável estado.

camioneta

“Quem lhe atropelou, fugiu?” perguntou-me um passante. Eu queria apenas um guincho e um táxi.  Só isso! E o bombeiro, então chegado, limpou meus ferimentos sem querer entender minha história (pudera!). Obrigou-me a assinar uma negativa de necessidade de atendimento hospitalar e tirou o time.

Eu havia emprestado o estepe pro Xico (agora falecido), ainda no verão passado. Afinal, temos os carros semelhantes e, ao irmos para o litoral, o dele furou dois pneus. E rodas de carros antigos, tais os nossos, são raras e não servem em qualquer outro recente. Nem me lembrava disso. O coitado morreu sem devolver o estepe.

Para encurtar o trecho, duas horas depois eu chegava ao trabalho, sem carro, sem celular (sei lá onde caiu), todo molhado, doído e desesperado.

A secretária (a mula gorda) avisou-me que o diretor me aguardava. E, como era de se esperar, não me permitiu sequer balbuciar a explicação. Ao me dar uma infinda bronca, com o indicador direito apontado, eu não esperei o fim e o mandei à merda. E repeti três vezes, aos berros: “Sua Excelência VÁ À MERDA”.  Eu não aguentava mais.

Desci os cinco pavimentos pela escadaria, caí duas vezes (numa bati com a testa num degrau e na outra virei o dedo médio da esquerda) e só parei quando estava na garagem do subsolo. Mera atividade mecânica, imaginando que o carro estaria lá.

Saí a pé na chuva, mancando de dor na perna esquerda, todo estropiado. Fiquei “séculos” no meio fio, acenando para os raros táxis e, o máximo que fizeram, foi respingar água. Resolvi então aguardar um ônibus e ir para a casa do Xico, pois ele fica em casa, pela manhã.

molhado

Mas sem óculos (deve ter caído com o celular) e com ninguém para me auxiliar, eu não conseguia identificá-los. Depois de várias tentativas frustradas, continuei a pé mesmo.

Passava do meio dia quando cheguei lá e eu mal sentia tato nas pernas. O Xico, logicamente, já havia saído. E, como a rua é deserta, sentei no meio fio e fiquei encostado numa árvore, meditando sobre as maldades da vida. Coisa de alguns minutos e estava repleto de formigas.

Algumas picaram com tal violência que eu arrancava metade do seu corpo e elas não largavam...

Não conseguia imaginar o que mais poderia acontecer. Pensei até em ligar a cobrar para o meu irmão, de um telefone público. Eles existem em todo o lugar onde não se precisa de telefone.

formigas

Voltei para o centro a pé, pois já estava com bastante fome. Mais uma hora mancando e cheguei à Avenida Central, “encontro” das lanchonetes aqui da cidade. Molhado, com visíveis e feios hematomas, manco e com a cicatriz (ainda meio aberta) no nariz, convenientemente escolhi a pior, a mais feia e vazia lanchonete e entrei. Acho que já era meia tarde, não tinha certeza, pois o relógio parou. E, se não tivesse parado, não haveria diferença, pois eu estava sem óculos.

Sentei num dos poucos banquinhos, à margem do balcão, e pedi um hambúrguer e uma Coca-Cola à garçonete. Ela me fitou atentamente (não deveria ser diferente) e depois perguntou se estava me sentindo bem. Deu-me um copo d’água enquanto eu aguardava o lanche. Contei-lhe a história toda, devidamente resumida, enquanto ela empacotava flores. Uma adolescente linda, ela tinha os cabelos claros e me ouviu! Deu-me doce atenção! Era quase tudo o que eu queria. Seria pedir-lhe muito, tomar-me em seu colo e me fazer adormecer, com as suas delicadas mãos a acariciar meus poucos cabelos.

Ela foi um venerável anjo. Ao menos até informar que ali era uma floricultura.

Floricultura

Eu sentia muito cansaço, meio tonto. Mas agradeci e ela amparou-me até a porta. Pensei em ajoelhar-me aos seus pés, divina e linda fada e beijar-lhe as mãos. Se o fizesse, eu não levantava mais. De lá eu deveria ter telefonado para o amigo Xico. Lembro que ela até ofereceu o telefone. Fui uma anta retardada, mas consegui ir caminhando (mancando) no sentido do consultório do Xico.

A chuva havia parado e entardecia uma neblina pesada e morna, presságio de mais água.

Eu já não conseguia comandar plenamente o corpo  e era comum ouvir buzinadas e palavrões ao atravessar as ruas.  Mas a cabeça estava boa, ao menos por dentro. Sentia-me leve, como se voasse baixo.

Perguntei a um guarda, onde teria um telefone público e ele informou que, no quinto quarteirão, bem em baixo de um prédio alto, havia quatro “orelhões”. Tanto trabalho tentando encontrar um e agora eu estava próximo de quatro. Oh, augusta felicidade!

orelhões

Enfim, cheguei aos telefones, situados em frente ao  descrito prédio alto. Era o prédio do consultório do Xico!    Tomei o elevador e, sozinho sentei-me no chão do veículo, valendo-me da desaceleração para erguer-me novamente.

“O doutor Francisco foi pra fazenda, volta amanhã. O senhor quer deixar recado? “ informou-me a secretária, já ameaçando fechar a porta.

Pedi o telefone emprestado e liguei para o celular dele, que estava fora de abrangência. Agradeci e descemos juntos no elevador. Ela perguntou se eu estava me sentindo bem, por três vezes, e não sei por que, pois no térreo sumiu apressada.

Nas proximidades encontrei uma praça, onde sentei num confortável banco, agradecendo aos céus pela existência dele no meu caminho, ante a chuva que recomeçava. Acho que fiquei ali umas duas horas e, como eu não conseguia dobrar o joelho, resolvi procurar uma farmácia.

Ao encontrar um policial, perguntei onde teria uma farmácia ainda aberta e, para minha surpresa, ele respondeu com um sorriso e uma pergunta: “O senhor encontrou os orelhões?”

imagesCA3G9OAB

Surpreendido por reencontrá-lo e pela sua memória, respondi afirmativamente com um aceno da cabeça e, com muita atenção, ouvi sua orientação geográfica. Não foi difícil encontrá-la. Era uma farmácia pequena e sem movimento.

Lá, o infame e solitário balconista, que mais parecia um vendedor de “carnê do baú”, insistiu em me vender mais medicamentos. Saí dali com uma sacolada de coisas. Conseguiu me vender até Phymatozan, Glycerophosphato, Strychnine, Antiphlogistine, Rhinogenol, Leite de Rosas, de Magnésia, de Aveia, de Colônia, Peitoral de Angico Pelotense, Lypocholepatine, Bismutho Geyer e outros produtos, certamente vencidos ou falsificados.

Andei dois quarteirões e, apoiado numa grande lata de lixo, abaixo de uma luminária, eu lia os rótulos e jogava os frascos no lixo. Cada um acompanhava uma gargalhada. Ri tanto que me urinei, pela segunda vez.

Eu já não sentia cheiros e limitava-me a rir das tantas coisas que o infeliz vendeu, além do que me interessava, as quais paguei com meus inúteis “vales-refeição” vencidos.

Voltei para o bairro, exaurido e sem saber exatamente como. Só sei que me flagrei sentado no bar do velho Antenor, onde eu e o Xico nos encontrávamos intermitentemente, o que agora (oh! meus santos), nunca mais o faremos.

Por alguns minutos fiquei ali, ao lado de “outros” bêbados, cada qual mergulhado em suas dores e odores.

Bar do Antenor

Antes de beber, em lágrimas dissimuladas, agradeci ao Supremo Criador por tudo o de bom que havia me oferecido.

Afinal, eu nunca fui um exemplo de coisa alguma. Como amante eu deixei a desejar em todas as chances que tive. Como motorista, atropelei um cachorro e dois gatos. Meus irmãos pouco me ligam. Para minha viúva mãe, não recordo ter feito algo de bom. Também pudera, ela me detesta... Ou é o  irmão caçula que ela odeia??...

Eu não lembrava mais. Também, já não fazia diferença quem ela detesta ou detestava, nesta altura do campeonato perdido. Eu estava embriagado e, mesmo antes de beber, confundia as idéias e as conclusões.

Agora é beber e depois ir para casa, se conseguir chegar moribundo até lá”, pensei.

Eu já não enxergava bem, nem o copo ainda cheio, quando chegou alguém por trás e falou meu nome, carinhosamente. Ainda consegui me virar e ver o Xico, meu querido amigo Xico.

A telepatia funcionou, meu aguardado amigo Xico”, balbuciei.

Eu estava em lágrimas. Mas não deu tempo.

Então eu o abracei, ele rapidamente pegou meu copo e, na mais ingênua ignorância, com sofreguidão, bebeu todo o meu veneno, guaraná com estricnina.

Pé

(A insolidez da vida é par à tangibilidade da ficção)

Darlou D’Arisbo

terça-feira, 11 de março de 2014

003 - O Melhor dos Vinhos

 
Nesta postagem, uma excêntrica história da série “Crônicas” e escrita há décadas. Obviamente as fotos não revelam exatamente as imagens do episódio.
As crônicas desta série constituem nada mais que o cultivo de pérolas no mar da vida. Um reflexo oportuno, relatando numa interpretação imaginativa, ficcional e subjetiva, algumas passagens da minha existência
 
O Melhor dos vinhos
Talvez eu não devesse ter ido. Mas tantas vezes se faz alguma coisa por mero ímpeto. Coisas simples, curiosidades, coisinhas enfim. Fazemos, às vezes mecanicamente, até sem interesses em resultados. Normalmente não nos trazem problemas estas coisinhas, embasadas no “ir ou fazer”. Assim vamos, quando alguém nos chama, mesmo sem saber quem nos chama ou o que quer nos informar.  
Mas enfim, eu ainda tenho dúvidas se deveria ter ido. Coisa que já informei lá no início. Ora, costumamos dizer “eu não deveria ter feito” quando já feita, ou até justamente por isso. E, em vezes, as consequências são agradáveis, outras não. Pois desta vez sim: agradável e curiosamente estranha. Ou o inverso: curiosa e agradavelmente estranha.
Era uma estrela cadente, destas como mil por aí. Estávamos os três na varanda fresca do gracioso apartamento do casal de amigos.
Interrompi bruscamente o assunto e exclamei pro Xico: “olha lá”. Apontei ao lado direito da coluna do prédio, na direção sudoeste.
“É um meteorito, e deve ter caído perto, pois notei que sua luz desceu aquém do pé da última colina”, eu disse.
Coisa de uns sete quilômetros, pensei. Tive vontade de ir lá e vê-la: a gota caída do céu, estaria ainda vermelha em brasa.
O Xico (médico, amigão, cético e lerdo) respondeu:
“Deve ser alguma estrelinha caída de tua fértil imaginação...”
Já a Miri, sua esposa, foi ao menos mais polida, ao dizer:
“Tens direito a três pedidos...”
“Ajudar plenamente alguém, brincar com uma criança e saber cativar uma doce mulher..” respondi.
Ela fitou-me profundamente e disse, lá do fundo:
“Boniiito...”
“Eu pediria um estetoscópio eletrônico, uma Ferrari zerinho e clientes ricos.” falou sorrindo o Xico.
O assunto era vago, a cerveja acabada, a noite avançava e a Miri, disfarçadamente, bocejava... Forcei também um bocejo e, com ele justifiquei a despedida do casal de amigos.
Tomei o carro e, sob os seus acenos, deixe-os abraçados, na mesma varanda.
Eu ia ao hotel, onde estava hospedado, mas a noite convidava a passear.
Parecem existir, cá no interior, mais estrelas que nas capitais e, cada uma delas aparenta sussurrar algo. Cada qual encerrava algo, tal um sigilo.
Diminuindo a velocidade, parei o carro. As estrelas fascinavam-me.
478a
Curioso, acionei a partida e aprumei o carro para o sudoeste. Desci todo o vale por uma estradinha sinuosa e escura. Assim como um cubículo corredor, com florestas silenciosamente adormecidas aos lados, curvas firmes e lógicas à frente, lúgubres no retrovisor escuro.
O chão, quente e natural, parecia que eu tentava acordá-lo com os faróis. E, acima, uma contínua faixa daquilo que apelidamos céu e, que no fundo, não sabemos exatamente o que é.
Ao fim de uma descida suave, então quase plana, vi à direita, algo como se fosforescente, a uns vinte metros ao lado da estrada. Um louco e suave impulso me fez, a pé, ir até lá.
Eram metais treliçados, em forma de tubos fosforescentes. Ou vidros cilíndricos como lâmpadas tenuemente acesas e levemente dobradas.
Em conjunto, aqueles tubos formavam algo como uma escultura moderna e curiosa. Uma composição geométrica. Era uma “coisa” indescritível. E, aquela sensação infantil e curiosa de descobrir algo, tomou-me, a esquecer de perigos, bandidos, animais noturnos e coisas assim.
A estranha “coisa” estava parada, imóvel, silenciosa. Parecia emanar dela, uma impressão de paz.
Não acredito que seus “raios”, de sutil luminescência, ativassem meu cérebro para sentir aquela feliz serenidade similar de quando, por exemplo, se encontra uma concha azul, em forma de sino, na tranquilidade da beira mar...
Cheguei bem próximo e, com o medo esquecido, toquei-a com a mão. A tal estrutura parecia ter brotado ali. Era fria, composta por um conjunto de canos paralelos e curvos, com ligamentos em forma de transversinas. Pareciam ocos semitransparentes e, internamente iluminados, assim como fracas e finas lâmpadas fluorescentes. Tinha o tamanho pouco menor que meu carro.
Na parte superior e ao centro, os canos suportavam mantas de espuma plástica (ao menos pareciam). Assim como confortáveis e delicadas cadeiras de dentista, sobrepostas.
Abaixo, também englobada pela estrutura, havia uma parte em forma de caixa, fosca e escura, com as arestas arredondadas.
Rodeei-a, tentando visualizá-la melhor. E atrás, três pequenas antenas, como se constituíssem o cume de uma deitada pirâmide triangular.
Pensei em voltar rápido para a cidade e buscar alguém para testemunhar o meu achado (ou meu sonho).
Porém, como aquilo poderia não acontecer novamente, resolvi ter certeza de não sonhar, confirmando sozinho a existência do tal bólido.
Seria temerário denominá-la uma nave extraterrestre ou coisa parecida. Ou relacioná-la com a estrela cadente.
Eram duas confortáveis e delicadas poltronas (quase camas) sobrepostas e suportadas por uma estrutura fosforescente amarela. Como se fossem tubos translúcidos com gás incandescido. Eu estava deslumbrado. E a tal caixinha preta, seria o motor? Sentia-me muito tenso. Não abalado, mas por extrema curiosidade.
Apalpei esta tal caixa. Era como o todo: fria e fechada.
Seria impossível tal cubo, do tamanho de uma caixa de refrigerantes, servir de máquina para uma nave espacial ou um helicóptero, seja lá o que fosse aquilo! Não havia entrada de ar, ou saída. Apenas um bloco fechado com três anteninhas, embaixo de duas esbeltas poltronas...
“Devo imaginar outra hipótese, isto não é uma nave espacial” pensei.
Cheguei a exclamar, sonoramente, para o negro eco noturno:
“Isto não é o que parece ser!!!”
“É, sim !” respondeu-me uma voz, logo atrás.
Foi o suficiente para eu me conscientizar e pasmar. Era uma voz de mulher, resoluta e delicada, pensei, sem ter coragem de virar-me ou encará-la.
“Você está armado?” perguntei-lhe, forçando ignorar sua patente feminilidade..
“É um veículo capaz. Mais do que os que tu conheces” falou, ignorando minha pergunta.
Vi minha sombra trêmula, projetada num arbusto à frente, o que me fez concluir que a pessoa estivesse caminhando em minha direção, com uma lanterna na mão. Ou com alguma luz difusa, sem foco concentrado, amarela e inconstante.
“Semelhante a uma vela acesa!” respondeu-me, adivinhando minha dúvida.
Num sobressalto, virei e joguei-me de bruços no chão úmido, num bobo ímpeto de escapar de possíveis disparos de arma. E, ao encará-la, fui tomado de pasma comoção.
Era uma bruxa. Ou tinha tudo para ser. Deitado que estava, observei-a de baixo para cima. Sapatos baixos e grandes, pretos, enrugados e foscos. Seus pés, imensos, não eram paralelos.
Formavam um ângulo de uns 20 graus. Vestia uma bata (um saco) de tecido pardo e folgado. Coisa de dois números maior que seu estreito e angular manequim.
Bruxa do conto
Sobre esta, tinha um casaco (ou jaqueta), com mangas muito largas, sem gola, vermelho ou roxo. A mão esquerda segurava a tal vela, ou algo semelhante, com a chama dentro da cera, sem candelabro ou suporte. A direita firmava um reluzente bastão metálico, de aproximadamente um metro.
Seus dedos eram suficientemente longos para, cada um, dar duas voltas na vela (ou no tal bastão). Eram magros, com as juntas grossas e unhas compridas e agudas. Seu rosto era “incomportável”. Tinha traços humanos, mas era destituído do menor senso estético. A boca, sempre semi fechada (mesmo quando falava), tinha lábios enrugados, pálidos e mortos como toda a pele aparente. As laterais côncavas com os ossos zigomáticos salientes. O nariz, longo, afilado e torto para a esquerda, com uma grande verruga lateral direita. Os olhos pareciam mergulhados em ninhos de rugas de pele. Eram claros, diretos e brilhantes. Um lenço (ou algo parecido), da cor do casaco, cobria-lhe a cabeça.
“A luz da vela identifica-me, iluminando minhas cores, nariz, verruga e olhos.. E dá sombra às minhas rugas, tal como me conheceste na noite das meias comentou ela, já imóvel e próxima.
Lembrei-me que, há onze anos, viajávamos eu e a Beatriz (a qual semi adormecida, reclamava do frio nos pés) pelo oeste de Santa Catarina, numa madrugada fria e chuvosa. Ao encontrar uma infeliz e solitária velha, no acostamento, eu parei o carro e ofereci carona. Ela não aceitou e disse-me que estava ali, à margem da estrada, aguardando-nos para oferecer o par de meias longas e grossas....
Incrédula até hoje, a Beatriz guardou as tais confortáveis meias do inacreditável sonho, que eu nunca entendi.
“E o que vais me oferecer desta vez?” perguntei.
Novamente ignorando a pergunta, ela apontou com o bastão, a poltrona superior, dizendo-me:
“Instala-te”.
A princípio não entendi e ia perguntar, mas lembrei que ela evitava responder. Levantei-me apreensivo, coloquei o pé esquerdo sobre algo que parecia um degrau, o joelho direito sobre a espuma fofa e deitei-me.
Então, devidamente instalado, notei que a tal poltrona era tão aconchegante, que se assemelhava a uma forma de mim. Era cômoda e confortável.
Olhei o céu muito estrelado e senti vertigem. Medo de cair naquele infinito vazio escuro.
Ela chegou perto de meu rosto, mas não senti seu calor. Supus que era fria como a luz de dentro dos canos. Vi seus olhos tão de perto, tão brilhantes, que pareciam minúsculas lâmpadas incandescentes. E o nariz, imenso e curvo, seria dispensável, pois ela não parecia não respirar.
“Para cheirar!” respondeu-me imediatamente.
Sem dúvida, telepaticamente, ela captava meus pensamentos...
E, segurando na ponta das unhas, colocou minúsculas pastilhas (ou comprimidos) nas minhas narinas.
Tomado pela decisão de assistir o “filme” até o fim, eu não ousava discordar.
“É um leve cloridrato de prometazina, para aliviar a sensação de vertigem!” disse-me, como sempre, delicadamente.
Senti um volátil e débil odor salgado, mas acabou logo.
Observei que ela acomodou-se na poltrona inferior e, logo após, tentei em vão elevar a cabeça cada vez mais pesada. Consegui observar meu carro, ainda com os faróis ligados e depois as luzes da cidade distanciando-se ...ao alto !
Eu me sentia muito bem e não experimentava frio nem calor.
FOTO da Terra
Vi, depois, as estrelas sobre mim desviarem-se para a esquerda, confundidas com o horizonte e algumas aglomerações luminosas. Talvez fossem vilarejos.
Não senti movimento algum e parecia estar parado a grande altitude, num espetáculo negro, salpicado de tênues luzes e cores, esperando o movimento dos continentes na contínua rotação de nossa amada Terra.
Não tive tempo para refletir, ou tirar conclusões. Foi muito rápido e, quando senti frio, já estava aqui nesta cabana pequena e acolhedora, com uma lareira acesa, à esquerda. À frente, numa mesa decorada com toalha branca rendada, um jantar estranho e apetitoso, uma garrafa de vinho e duas taças de cristal.
Atentei ao rótulo da bebida: lá, a paisagem de um antigo lugarejo com rua estreita e pavimentada com pedras grandes, casas de fachadas em estilo árabe, com pequenas e ornadas sacadas metálicas.  Na rua, desenhada também uma bela moça transportando um balde com uvas.
Em letras neogóticas, li naquele rótulo: “Viño Rioja - El Mejor Viño de España.”
A linda jovem do rótulo, então surpreendentemente sentada à minha frente, ergueu sua taça e convidou-me a brindar: “salud”.
 
(arredores de LOGROÑO / Espanha - dezembro de 1976 )