Vivo numa antiga casinha cômoda e tranquila, imersa num bosque paradisíaco, onde energias positivas emanam do subsolo e gnomos correm pela madrugada a plantar coloridos e perfumados cogumelos.
Único lugar no mundo, onde letras luzidias caem do breu do céu noturno, tais quais floradas, ficam então deitadas coloridas na relva úmida, luminescentes e disponíveis, para que um velho careca e preguiçoso como eu, nem careça procurá-las.
Basta passear sob aquele céu estrelado, que eu sei: tais astros não são estrelas, mas sim potentes e luminosas emissoras de letrinhas, as quais estas, tais flocos, aos poucos tomam conta da minha imaginação.
E de posse desta dádiva celestial, o mínimo que eu podia fazer, era escrever. E escrevia.
Mangel an Licht é uma região mal atendida pelo abastecimento elétrico, onde a dualidade do choque energético, coloca de um lado as emanações das forças celestiais, cobrindo tudo de cores, formas, vida,... E de outro, as intempestivas maquinações da noturna bruxa tecnológica, a infernizar de mórbido negro e a quebrar os todos ritmos vitais.
Eu sobrevivo escrevendo artigos para um periódico da capital e, nas vagas horas, um livro, relatando também as tristes decorrências da intermitente falta de energia elétrica.
Embora possua um computador atualizado, porém, como imediato resultado dos inconvenientes cortes de energia, fui obrigado a trabalhar numa vetusta máquina de escrever “Corona Kowid”, minha preferida, pela existência de castiçais laterais, com velas para a óbvia utilização noturna.
![]() |
Corona, minha companheira |
Assim, além de funestamente preta, ela lembra um macabro ataúde, toda pingada de vela. Instalei até um suporte, abaixo da tecla dos espaços, para a caixa de fósforos, permanentemente aberta.
A minha baixa remuneração ainda é suficiente para adquirir, além de outras coisas menos importantes; sabão, gasolina, alimentos e velas. Muitas velas.
Bem mais do que os cinco pacotes mensais de velas, em equivalência financeira, que o presidente da Companhia de Luz citava pela televisão, na época, para fazer o tão almejado suprimento de energia.
E, justamente por isso, meu filho não conseguia entender se o negócio do presidente da Companhia era o próspero comércio de velas ou o seu precário serviço de abastecimento energético.
![]() | |
A mística fonte de luz | |
E seus longos e belos cabelos tiveram de ser cortados, pela dificuldade em manter um secador, secando-os. Som, só o do carro, quando ela remendava nossa roupa, com agulha na mão, sob a noturna luzinha do teto.
Uma vez jogou-me, furiosa, o depilador elétrico que lhe presenteei na noite do dia das mães. Tive sorte, ela não me acertou, por que no momento certo, faltou luz.
Aliás, era grande a correria noturna, quando voltava a energia elétrica. A bomba do poço, intempestivamente acordada na madrugada, vazava a caixa d’água, apodrecendo o forro e inundando a casa. Os cachorros de toda a vizinhança, subitamente despertados pelas lâmpadas externas, unissonavam fantasmagóricos uivos pela noite alta. E as crianças eram carregadas da sala de televisão, onde adormeciam tentando ver um programa inteiro.
Agora moro sozinho. E já estou me acostumando às faltas da Companhia.
Justamente ela, em suas tantas e desavisadas faltas, me faz atribuir o devido valor à sua infrequente presença. Paradoxalmente, bendita seja a falta da maldita.
Post Scriptum: Na audiência, o juiz só acreditou no estranho motivo da separação, quando ela esposa, durante a tentativa de reconciliação, afirmou aos brados e com o indicador em riste, que não me queria mais.. Nem iluminado !
![]() | |||||||
...nem iluminado ! |