quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

015 - O Café da Etérea Vizinha


Há alguns anos, numa tarde chuvosa e fria, estava eu solitário e recolhido no interior do motor home, lá no Camping de Foz do Iguaçu.  Eu lia algum assunto sem graça, quando vi, pela janela lateral, a chegada de mais dois campistas, num pequeno automóvel.
Era um jovem casal de calouros que, apesar da chuva, ambos empenharam-se a descarregar o carro e montar a imensa barraca.  

 O céu, ameaçando restaurar a vegetação


A tarefa, simples e corriqueira em tempo seco, constituiu-se em barulhento desafio.    Sacolas coloridas, canos de estrutura, sacos de alimentos, fogão, bancos, roupas, corriam em rodízio, transportados pelo par de pintos molhados, ora retirados do bagageiro e colocados no interior do veículo, ora a incoerente inversão.
Palavras de ordem em diversos timbres logo se fizeram ouvir.   E os invisíveis e travessos duendes da confusão, aos poucos tomavam conta do caos das ferragens, teimosas em não encaixar.

Decidi então ajudá-los e realizar mais que apenas uma boa ação. Fazer o que eu gostaria que fizessem comigo em tais adversas condições meteorológicas.
Sem quaisquer apresentações, atraquei-me com eles na montagem da grande barraca de dois quartos, cozinha, e muito supérfluo equipamento.  
Enfim, após longa hora, nós três, encharcados, demos conta do recado, ao apertarmos as mãos molhadas em cordial cumprimento.   Prometemos nos encontrar na cantina, mais tarde, para saborear uma merecida cerveja.

Ao voltar ao meu motor home, tiritando de frio, preferi tirar a camiseta sob o toldo e secar-me antes de adentrar.
Porem, para minha absoluta surpresa, surgiu-me ali, de repente e sem qualquer ruído, uma simpática senhora.   Tinha olhos brilhantes, um sorriso contagiante e vestia uma túnica branca, com capuz acinzentado.  Estava descalça e, com as duas mãos, segurava uma xícara de aromático café quente.
Disse-me que admirou minha generosidade para com os novos vizinhos, motivo pelo qual me trouxe o oportuno e delicioso café.

 Café: mentor da gratificação cerebral

Não entendi de onde veio e como apareceu ali, repentinamente, a um metro de mim, tal simpática mensageira de Deus.
E, tomado de assombro, não me saiam as palavras de agradecimento.
Embora minhas cordas vocais tenham conseguido só balbuciar um simplório “b.. brigado”, juro que meu cérebro preparou mais. Uma retribuição com mais e melhores palavras.   Algo como:

“Distinta e nobre senhora, eu não sou merecedor de tamanha gentileza.  O auxílio que prestei aos nossos recém chegados vizinhos, não justifica seu tamanho sacrifício.  Em pés nus na grama lamacenta, submetida aos rigores desta fria chuvarada, mãos a embalar tão singela porção quente e restauradora...   Nego-me a sorvê-la!   Vou sim guardá-la a mil e uma chaves,  por sete séculos, tal jóia líquida, para minha eterna admiração...  
E que Alá - o justo - me permita lembrá-la, qual celestial criatura - um surpreendente anjo - a acarinhar-me a cada boa ação... tão poucas o faço.”

Mas o sublime inesperado bloqueou o procedimento mental e impediu-me de proferir tais doces palavras.

O dia seguinte amanheceu ensolarado, com límpido céu de brigadeiro.
Tentei em vão encontrar a tão gentil senhora, para agradecê-la. Percorri os locais próximos, perguntei aos demais vizinhos, porem sem sucesso.   
E, ao perguntar ao Guarda Camping, informou-me ele, claramente espantado com a história, que tal pessoa e conforme minha descrição, não estivera presente no camping.

Espero um dia poder encontrá-la, etérea vizinha, para retribuir tal notável e inesquecível gentileza.  

Neste ou em algum mundo destes.
             
Darlou D’Arisbo - setembro de 1995