terça-feira, 24 de junho de 2014

008 – O Jornaleco da Villa

Da série “Memórias da Villa”
 
Por muitos e longos anos, a Villa sobreviveu sem jornal. Entretanto, numa bela noite de lua cheia, após a semanal reunião na chafarica, os fraternos aliados resolveram inventar um jornal.
Na manhã seguinte, no Habeas Corpus Café (compulsório e matutino encontro), após irrefletida decisão conjunta, resolveram inventá-lo. E, pior, alardearam aos ventos, distribuí-lo na próxima segunda quarta de junho, aniversário do “alcaide”, o Dr. Sapien Tisat.

Porém, como ainda em maio só tinham assunto aprovado de meia página, protelaram para após o fim do inverno, quando já estariam filiados os candidatos ao almejado sufrágio da alcaidaria, um tema quente para as noites frias.
Numa reunião seguinte, afirmou o aposentado Coronel Geheime Blitzkrieg, ex-comandante da Jefté (Jovens Escoteiros), em timbre de locutor de rodeio, que, para imprimi-lo com sucesso, haveria necessidade de apenas três coisas: um péssimo equipamento, um medíocre corpo de colaboradores e um sensacional e palpitante assunto.

Em menos de onze semanas, o desacreditado equipamento estava completo, incluindo peças que hoje nos pareceriam assaz curiosas. Havia uma prensa de espremer torresmo que Dona Ultra Petita, mãe do Pastor Meher Licht, trouxe de Santarrosainterland e um engradado de minúsculos tipos metálicos (alguns ainda góticos) que teriam sido reutilizados na Revolução Farroupilha.

Toledo antigo A
 
A imensa máquina de escrever (entenda-se catamilhografar), pesada e preta, cujo mecanismo lembrava os metálicos intestinos de um bonde, foi cedida pelo juiz de paz, Dr. Cedant Toga Armae.
O corpo de colaboradores foi-se aos poucos formando, incluindo nobres autoridades da Villa, como o Dr. Aut Caesar, rábula da intendência e diretor do Gimnásio Casus Belli e sua esposa Aut Nihil, manicura do Bas Fonds Saloon, que prometeram responsabilidade sobre a revisão.

Tinha também o pastor Pluralia Luther Tantum, emprestado da comunidade de Tiggerstrom, um notável e insigne defensor da moralidade que, embora não pertencente à distinta e secreta plêiade, foi adotado pelas suas patentes qualidades. Os apetitosos docinhos alemães preparados por sua esposa, tão doce quanto eles, interrompiam por sedução todas as extraordinárias reuniões vespertinas.

O Professor Propílio Oliveira (o “Gratsmoke”), português de nascido, letrado e neófito, foi encarregado da edição das matérias, mas como poucas lhe chegavam, acabou por desempenhar mais uma página: “Ad Argumentandum Tantum”, um apimentado heterogêneo relatando a desordem social, a menosprezada filosofia e a olvidada moral vigente.

Sim, as mulheres, ainda que inconcernentes à confraria base, também integraram o corpo editorial. As gêmeas Sister e Shwester, cozinheiras do Hotel Avenida, escreveriam gostosas receitas de carne de porco, bicho abundante nos arredores minifúndios da Villa.
Importante foi a caneta tinteiro do velho Oskar (Oldcastle), que, nem velho nem castelar, mas dentre os bons, o melhor.  Trazia os brados contra as inadequações da produção agrária, malhava as extensas plantações de fumo: “Mandioca em lugar de fumo”, afirmava.

Toledo B

Na página policial, cognominada pelo Padre Idalino de “Furandi, laedendi et necandi”, os afros Gibão-boa-fala e o Ataliba, qual engrenagens irmãs, traziam os acontecimentos policiais. Enquanto o Giba trazia as quentes, o Liba enfeitava-as com flores, chumbos e sangues, como se ao microfone da Regional (o GibaLiba), a emissora do estimado doutor Dorvalino.

Na festiva primeira edição, bem ao lado do longo editorial, apareceu o último trecho do oratórico discurso proferido pelo centurião estadual, em visita ao decurião municipal, o que sensibilizou por demais a plebe alfabetizada e leitora, lacrimejando as solteironas e viúvas:
“Aos atributivos pormenores da inigualável e ínfera cânula da epopéica contemporânea, não nos sublimaremos pelos perplexos desânimos fitófagos obstrucionistas, pirilampeando nos enfadonhos trâmites dos genótipos projetantes e representativos” (palmas ensurdecedoras).

Os primeiros exemplares foram, em lombo de burros, entregues às lideranças, em ordem decrescente de importância. Inversamente a esta lógica, as ponderações e críticas (algumas impetuosas), instalaram-se em rápida proliferação.

As soluções apressadas de última hora conspurcaram a pretensa e tranquila atuação do periódico. Ao copiar as fotos, avessaram o negativo do Coronel e apareceu ele, na primeira página, em continência esquerda, recebendo do General virado, a medalha sinistra no peito errado, com um aperto de mãos sestras, sob a bandeira invertida à frente de uma sonora banda de canhotos.

E o nome do jornaleco, que deveria ser Anschluss, insistido pela colônia italiana para “Faccioni”, acabou por Editio Princips (Latim: primeira edição), mas foi incorretamente grafado com “Edilio Príncipe”, o que provocou injuriosa reação pelo representante da família imperial da Villa.

Enfim, o sucesso do empreendimento não residiu em sua intenção informativa, que teve em sua primeira, a última edição. Mas intentou positivamente no sentido de despertar da consciência comunitária e da cidadania. Algo como um malogro sensivelmente benéfico.

A partir do episódico, recrudesceram as adversas opiniões, os debates intensificaram, aliaram-se simultâneas e antes desconhecidas ideias concorrentes, ,...
E a Villa então prosperou.























domingo, 22 de junho de 2014

007 – A Inesquecível Companhia

 

Já fui mais velho quando vim para cá, e insisto em continuar morando aqui. Isto por que Light Lack (falta luz) é um lugar aprazível para se morar, onde todos os cinco bons sentidos da natureza ainda se fazem aqui deliciosos e presentes.

Vivo numa antiga casinha cômoda e tranquila, imersa num bosque paradisíaco, onde energias positivas emanam do subsolo, e gnomos correm pela madrugada a plantar coloridos e perfumados cogumelos.

Único lugar no mundo, onde letras luzidias caem do breu do céu noturno, tais quais floradas, ficam então deitadas coloridas na relva úmida, luminescentes e disponíveis, para que um velho careca e preguiçoso como eu, nem careça procurá-las.

Basta passear sob aquele céu estrelado, que eu sei: tais astros não são estrelas, mas sim potentes e luminosas emissoras de letrinhas, as quais estas, tais flocos, aos poucos tomam conta da minha imaginação.

Quiçá penetradas pelos poros de minha calva, aninham-se em magnífica ordem nos meandros dos meus labirintos cefálicos.

DSC00515

O mínimo que eu podia fazer, de posse desta dádiva celestial, era escrever. E escrevia.

Light Lack era uma região mal atendida, com o sugestivo nome.

Lá, a dualidade do choque energético, colocava de um lado as emanações das forças celestiais, cobrindo tudo de cores, formas, vida,... E de outro, as intempestivas maquinações da noturna bruxa tecnológica, a infernizar de mórbido negro e a quebrar os todos ritmos vitais.

Eu sobrevivia escrevendo artigos para um periódico da capital e, nas vagas horas, um livro, relatando também as tristes decorrências da intermitente falta de energia elétrica.

Embora possuísse um computador atualizado, porém como imediato resultado dos inconvenientes cortes de energia, fui obrigado a trabalhar numa velha e pesada máquina de escrever “Underwood 1921”, minha preferida, pela existência de castiçais laterais, com velas para a óbvia utilização noturna.

Uma vez, eu tentei instalar na velha máquina um sistema de iluminação com pilhas, mas seus sacolejos rompiam os delicados filamentos das lampadinhas.

Assim, além de funestamente preta, ela lembrava um macabro ataúde, toda pingada de vela. Instalei até um suporte, abaixo da tecla dos espaços, para a caixa de fósforos, permanentemente aberta.

DSC00007

A minha baixa remuneração era suficiente para adquirir, além de outras coisas menos importantes; sabão, gasolina, alimentos e velas. Muitas velas.

Bem mais do que os cinco pacotes mensais de velas, em equivalência financeira, que o presidente da Companhia de Luz citava pela televisão, na época, para fazer o tão almejado suprimento de energia.

E, justamente por isso, meu filho não conseguia entender se o negócio do presidente da Companhia era o próspero comércio de velas ou o seu precário serviço de abastecimento energético.

Minha agastada esposa, invejável criatura, no limite de sua esgotável paciência, não suportou a retrógrada situação de falta energética e pediu o divórcio. Afinal, ela jamais podia ter a certeza da utilização de quaisquer eletrodomésticos. As interrupções elétricas desandavam bolos, novelas, vitaminas e roupas lavadas na máquina.

E seus longos e belos cabelos tiveram que ser cortados, pela dificuldade em manter um secador, secando-os. Som, só o do carro, quando ela remendava nossa roupa, com agulha na mão, sob a noturna luzinha do teto.

Uma vez jogou-me, furiosa, o depilador elétrico que lhe presenteei na noite do dia das mães. Tive sorte, ela não me acertou, por que no momento certo, faltou luz.

Banho, nós só tomávamos frio, e com alguém manivelando a bomba manual, pois a elétrica era cúmplice da concessionária. E ferro de passar, era um suplício, pois bastava aquecê-lo, para a Companhia esfriá-lo. Era o tempo certo. Além do que, nossos trajos demonstravam feias cicatrizes de queimaduras, pois que no meio da noite, a Companhia ligava e queimava roupas, pelo nosso escuro descuido de deixar o ferro elétrico sobre elas.

Aliás, era grande a correria noturna, quando voltava a luz. A bomba do poço, intempestivamente acordada na madrugada, vazava a caixa d’água, apodrecendo o forro e inundando a casa. Os cachorros de toda a vizinhança, subitamente despertados pelas lâmpadas externas, unissonavam fantasmagóricos uivos pela noite alta.  E as crianças eram carregadas da sala de televisão, onde adormeciam tentando ver um programa inteiro.

Agora moro sozinho. E já estou me acostumando às faltas da Companhia.

Justamente ela, em suas tantas e desavisadas faltas, me faz atribuir o devido valor à sua infrequente presença.  Bendita seja a falta da maldita.

Post Scriptum:  Na audiência, o juiz só acreditou no estranho motivo da separação, quando ela esposa, afirmou, durante a tentativa de reconciliação, com o indicador em riste, que não me queria mais.. Nem iluminado.